“AFINAL, QUEM SOMOS, NÓS MULHERES?”
- Marina Gonçalves de Oliveira

- 21 de mar. de 2025
- 2 min de leitura
Marina Gonçalves De Oliveira
Há muita beleza em ser mulher. É a possibilidade de vivenciar antagonismos, dilemas e controvérsias. É viver reconhecendo a grandiosidade de gestar em nossos ventres outras vidas e, de forma simultânea, enfrentar os preconceitos e as exclusões com sorrisos banhados de lágrimas. É esse sentimento ambíguo de poder ocupar lugares e, ao mesmo tempo, perceber que os assentos foram previamente nomeados. É o tentar viver livremente e ditar as regras de nossas vidas, mas lutar contra as violências que nos afligem (quando não nos tiram a vida).
Eu, que há muito fui vítima dessa violência tão injusta, percebo que, em alguma medida, também já figurei no papel de agressora quando não reconheci as capacidades e qualificações de outra mulher, quando subestimei suas histórias de vida, quando me comparei com uma realidade que jamais seria minha, pois assim não poderia ser.
Entre nós existem Danielas, Andreias, Marianas, Anas e Fernandas. E somos nós, mulheres, que representamos essa esperança por dias melhores que se renova dia após dia. Estamos dentro das escolas, em nossos lares, nas universidades, nos escritórios, na política e nos diversos lugares que, de forma onipresente, nos fazemos ouvir. E, por ironia do destino, do acaso ou do divino, não somos reconhecidas pela sociedade que geramos e educamos.
Gosto muito da passagem da filósofa norte-americana, Nancy Fraser (1947- ), que defende que nunca somos mulheres na mesma medida, uma vez que nossa condição em alguns cenários nos engrandece e, em outros contextos, nos diminui. Essa bivalência que circunda o feminino é o que sempre me fascinou e provocou minhas inquietações, pois aquilo que me diferencia e me enobrece, pode me excluir e me tirar a vida. E não há amargor maior.
Acredito muito que o elo que nos distancia de nosso ser singular para transformar-nos em ser plural como coletividade, são nossas vivências, nossos contextos e a percepção que temos sobre as regras sociais e normas morais, as quais sequer participamos no processo de construção.
Nunca pude nomear meu agressor, pois não o denunciei. Sou uma das milhares de mulheres que entram para as estatísticas dos órgãos de justiça criminal como fatos que não chegam ao conhecimento da polícia. Durante anos, mantive reclusa minha história, o que me causou uma inquietação ainda maior, pois como diria Maya Angelou “Não há maior agonia do que suportar dentro de si uma história não contada”. Então, neste compromisso de ajudar outras mulheres a romperem com essa noção de que somos menos, comecei a dar voz à minha história, a chorar minhas lágrimas e ocupar o espaço que eu jamais deveria ter deixado de ocupar: O de protagonista da minha vida.
Minha história, infelizmente, não é um enfadonho episódio isolado e desconhecido pelas mulheres na sociedade brasileira, é um sinal de que nossa sociedade se constituiu de maneira doentia e nossas normas sociais e positivadas merecem ser reconsideradas. Às mulheres, reforço o mandamento da escritora francesa, Hèléne Cixous (1937- ): “Escreva-te: é preciso que seu corpo se faça ouvir”. É isso que desejo à todas, sem exceção.




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