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CONHECER O OUTRO: DA PROJEÇÃO AO ENCONTRO VERDADEIRO

Julio Furlaneto

Muitas vezes, quando falamos em “conhecer o outro”, imediatamente pensamos em estar solteiro e buscar alguém novo. Mas esse processo tem muito mais a oferecer — aplica-se tanto a quem busca um relacionamento quanto a quem já está em um e deseja ampliar a conexão de forma profunda e duradoura.

Ao encontrarmos alguém pela primeira vez, acabamos carregando dentro de nós uma bagagem de expectativas. Sem perceber, projetamos nossos desejos e fantasias sobre essa nova pessoa, antes mesmo de termos tempo para realmente conhecê-la. Em termos psicológicos, isso é chamado de projeção: um mecanismo inconsciente de defesa que faz com que atribuamos aos outros pensamentos, sentimentos ou comportamentos que são, na verdade, nossos.

De certo modo, projetar não é algo inerentemente ruim — é um mecanismo de proteção e até de empatia, pois nos ajuda a nos conectar com o mundo emocional alheio. Porém, quando nossas expectativas passam a dominar a percepção, subtraindo a imagem real do outro, nos tornamos incapazes de enxergá-lo como realmente é. Nesse ponto, a projeção deixa de ser aliada e se torna um obstáculo às relações autênticas.

E esse obstáculo se intensifica quando a ansiedade entra em cena — algo mais comum do que imaginamos hoje em dia, considerado até uma epidemia. Quanto mais barulho interno carregamos — pensamentos repetitivos, traumas não processados, carências — menos espaço criamos para realmente perceber o outro e seu mundo interior. Passamos a reagir não ao que ele diz ou faz, mas ao que imaginamos estar ali.

É por isso que sempre costumo dizer: “Tome cem cafezinhos com a pessoa antes de mergulhar na intimidade.” É uma brincadeira, é claro, mas carrega um convite real: levante cada xícara como um passo em direção à compreensão genuína. A cada encontro, temos a chance de questionar: “O que estou projetando aqui? O que é real?” — e assim vamos filtrando expectativas, medos, memórias antigas e sonhos futuros. É nesse ritmo que a relação, aos poucos, ganha forma concreta, baseada na realidade vivida pelos dois.

Esse movimento não vale apenas para quem está começando algo novo. Em muitos casais, mesmo após anos, não é raro que as pessoas digam, em terapia, que se tornaram “dois estranhos no ninho”. Por estarem imersos na rotina, deixaram de lentamente “beber” os seus próprios cento de cafezinhos. E a convivência, que já foi rica, ficou rasa. Do mesmo modo, solteiros com histórico de relacionamentos longos frequentemente se queixam de terem dificuldade de iniciar algo novo, mesmo com inúmeras oportunidades — justamente porque o interno está bagunçado demais para permitir clareza no contato.

Nossa história pessoal — traumas da infância, decepções passadas, medos ainda não resolvidos — molda nossas projeções. E sem um trabalho interno, essas feridas continuam ativas, interferindo sem que percebamos. Por isso, tão importante quanto estar atento às projeções é olhar para dentro: meditar, reservar momentos de reflexão, conversar consigo mesmo como quem se observa em terceira pessoa. O objetivo é descobrir: o que aquele medo tem a ver comigo? O que essa carência revela sobre o que preciso cuidar em mim? Essa autorreflexão contínua nos ajuda a amadurecer, a regular nossos sentimentos e a estar mais presentes para o outro.

É essa versão mais madura – construída com paciência, autoconhecimento e presença — que possibilita encontros mais ricos. Quando nos conhecemos de verdade, enxergamos o outro, não apenas as ideias que projetamos sobre ele. E é assim que um simples café vira oportunidade de intimidade, respeito e construção conjunta.



 
 
 

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