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O que acontece depois do 8 de março?

Giselly Mondardo

Psicopedagoga e Doutora em Educação

Na última semana, no 8 de março, comemorou-se o Dia Internacional da Mulher. E eu ainda estou presa lá, naquele momento em que recebi vários parabéns, felicidades… e, embora tenha retribuído com sorrisos, sentia um nó na garganta ao pensar sobre os reais motivos de termos um dia para celebrar.

Segundo o 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os registros – mesmo subnotificados, ou seja, com milhares de casos que nunca foram denunciados – mostram um cenário brutal no Brasil:

  • 1.467 mulheres assassinadas em 2023. Mortas por serem mulheres. Uma a cada seis horas.

  • 83.988 estupros registrados. Um a cada seis minutos. Violentadas, silenciadas – muitas sem sequer sair vivas dessa realidade.

  • 258.941 mulheres espancadas dentro de casa. Porque, para tantas, o perigo não está apenas na rua, mas dentro de casa.

  • 848.036 chamadas para o 190. Mulheres pedindo socorro. Algumas conseguiram ajuda… Outras, não.

E esses números – que nem de longe refletem a realidade – são apenas a ponta do iceberg. Porque o medo nos cala.

Temos medo de denunciar e não sermos levadas a sério.

Temos medo de sofrer ainda mais violência, de sermos expostas, retaliadas.

Temos medo de não conseguirmos sair vivas.

Se a estatística serve de aviso, no próximo ano esses números, provavelmente – e eu gostaria muito de estar errada – não apenas vão se repetir – eles vão aumentar. E, apesar disso, quando falarmos sobre violência contra mulheres e mães, continuaremos ouvindo que "não é bem assim". Que é exagero. Mimimi. O que essas besteiras significam?

🔹 Precisarmos avisar que chegamos bem – porque sempre há o risco de não chegarmos.

🔹 Caminharmos com as chaves entre os dedos, prontas para correr.

🔹 Pensarmos duas vezes antes de fazer algo sozinhas.

🔹 Evitarmos andar na rua depois que o sol se põe.

🔹 Sermos assediadas em qualquer lugar e precisarmos fingir que nada aconteceu.

🔹 Ouvirmos que precisamos "nos dar ao respeito", enquanto os agressores seguem impunes.

🔹 Sermos taxadas de "grossas" ou "difíceis" apenas por sermos assertivas – porque isso não é "feminino".

O que chamam de mimimi é, na verdade, o reflexo de uma vida sempre em alerta e na defensiva. Não é frescura, é sobrevivência.

E, ainda assim, todo 8 de março, nos desejam felicidades. Mas o que eu espero, como mulher, não é um dia de reconhecimento. É que nós todas possamos viver sem medo – nos outros 364 dias também.


 
 
 

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